Se o fígado sofre calado então o que nos falaria, como forma de alerta, se conseguisse escrever
Acho que começaria nos falando sobre as hepatites, tema que será agora abordado.
O que significa
hepatite
Hepatite é um termo geral que significa que o fígado está
inflamado, podendo ter várias causas e, dentre elas, o
uso de alguns medicamentos, álcool e outras drogas, além de doenças autoimunes,
metabólicas e genéticas, assim como os agentes
infecciosos. As hepatites virais podem ser causadas por vários vírus
como os das hepatites A, B, C, D e E. Essa hepatites destacam-se por serem um
grave problema de saúde pública em todo mundo. No Brasil, as mais comuns são aquelas
causadas pelos vírus A, B e C; enquanto que os vírus D e E são mais frequentes na
África e na Ásia. Todos esses tipos de vírus causam uma hepatite viral aguda porém, os vírus das hepatites B, C e D podem causar infecção crônica e
prolongada, às vezes por toda a vida. A hepatite crônica (ou prolongada) pode
causar cirrose, insuficiência hepática (mau funcionamento do fígado) e também
câncer hepático.
Hepatite B
A hepatite do tipo B é uma doença infecciosa também chamada
de soro-homóloga. É causada pelo vírus B
(HBV), um vírus DNA, família Hepadnaviridae. Como dita anteriormente, pode causar infecção aguda, que é quando a infecção tem
curta duração ou crônica que
acontece quando a doença dura mais
de seis meses. O risco de tornar-se uma doença crônica depende da idade em que
ocorre a infecção, sendo as crianças o grupo mais afetado. Naquelas com menos de um ano, esse risco chega a
90%; entre 1 e 5 anos, varia entre 20% e 50% e em adultos, o índice cai para 5%
a 10%.
Como o VHB está presente no esperma, a hepatite B é considerada uma doença sexualmente transmissível portanto, pode ser transmitida por
relações sexuais sem camisinha, com uma pessoa infectada. Além disso, por está
presente no sangue e leite materno, pode também ser transmitida da mãe
infectada para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação, compartilhamento
de material para uso de drogas (seringas, agulhas, cachimbos), de higiene
pessoal (lâminas de barbear e depilar, escovas de dente, alicates de unha ou
outros objetos que furam ou cortam) ou de confecção de tatuagem e colocação de “piercings”
e por transfusão de sangue contaminado. O período de transmissibilidade pode durar de duas a três semanas
antes dos primeiros sintomas e mantém-se durante a evolução clínica da doença.
O portador crônico pode transmitir por vários anos.
Pode ser assintomática, mas sinais e sintomas costumam aparecer de um a seis meses após a infecção, de
forma diversificada e nem sempre são característicos
apenas da hepatite. Entre as
sintomatologias apresentadas destacam-se pele e olhos amarelados (icterícia),
cansaço e tontura, dor abdominal, diarreia, náuseas ou vômitos, febre, urina de
coloração marrom escura (colúria) e às vezes fezes claras (hipocolia fecal).
O diagnóstico pode ser
clínico e laboratorial.
Apenas com os aspectos clínicos não é possível identificar o agente etiológico,
sendo necessários exames sorológicos. Os exames laboratoriais inespecíficos
incluem as dosagens de aminotransferases ALT (alanino aminotranferase) e AST
(aspartato aminotransferase) que quando elevadas indicam lesão do parênquima
hepático e, para avaliar a função hepática, podem ser dosadas as bilirrubina e determinar
o tempo de protrombina; ambos encontram-se elevadas/aumentado quando o fígado
tem a sua função comprometida, indicando gravidade. Os exames específicos são
feitos através de métodos sorológicos e de biologia molecular. Seis marcadores
sorológicos são usados rotineiramente: HBsAg (Antígeno de superfície do
vírus B), sua presença
indica infecção em curso; Anti-HBc IgM (Anticorpo IgM contra o antígeno core
do vírus B), sua presença indica
infecção aguda, sendo o primeiro anticorpo detectável; Anti-HBc total
(Anticorpos totais contra o antígeno core do vírus B), é o melhor marcador de exposição ao
vírus B; HBeAg (Antígeno “e” do vírus B), é um marcador de replicação viral, sendo sua positividade
indicativa de alta infecciosidade; Anti-HBe (Anticorpo contra o antígeno “e”
do vírus B), geralmente, é
detectado após o desaparecimento do HBeAg, sugerindo redução ou ausência de replicação
viral; Anti-HBs (Anticorpo contra o antígeno de superfície do vírus B), é um anticorpo protetor,
neutralizante. Está presente, geralmente, após o desaparecimento do HBsAg,
indicando resolução da infecção e imunidade. É encontrado isoladamente em
pessoas vacinadas. Tanto no caso da hepatite B, quanto da C, é
preciso um intervalo de 60 dias para que os anticorpos sejam detectados no
exame de sangue.
Como forma de tratamento, tem-se os medicamentos alfa-interferon
e o peginterferon (ou interferon peguilado), que são drogas que reduzem a
replicação do vírus e melhoram o sistema imune (sistema de defesa do
organismo). Há ainda medicamentos antivirais como a lamivudina, adefovir
dipivoxil, entecavir e telbivudina. Vale salientar que crianças nascidas de
mães infectadas com o vírus da hepatite B devem receber imunoglobulina humana
antivírus da hepatite B e também a vacina para hepatite B até 12 horas após o
parto, para ajudar a prevenir a infecção.
As diversas formas de prevenção para que novos casos de hepatite B não surjam
são: o controle efetivo de bancos de sangue através da triagem
sorológica (exames feitos de rotina no sangue armazenado), vacinação contra
hepatite B (disponível no SUS), o uso de imunoglobulina humana antivírus da
hepatite B (também disponível no SUS), o uso de equipamentos de proteção
individual pelos profissionais da área da saúde, não compartilhamento de
alicates de unha, lâminas de barbear e escovas de dente, não compartilhamento
de seringas e agulhas para uso de drogas e o uso de preservativos.
Atenção:
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza gratuitamente a vacina contra a hepatite B em qualquer Unidade Básica de Saúde (UBS) para faixas etárias específicas e para situações de maior vulnerabilidade. Fazem parte dessas faixas etárias específicas: menores de um ano de idade, a partir do nascimento, preferencialmente nas primeiras 12 horas após o parto e crianças e adolescentes entre um e 19 anos de idade. Para todas as faixas etárias a vacina está disponível nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) para as seguintes situações: vítimas de abuso sexual, vítimas de acidentes com material biológico positivo ou fortemente suspeito de infecção por VHB, profissionais de saúde, hepatopatias crônicas e portadores de hepatite C, doadores de sangue, transplantados de órgãos sólidos ou de medula óssea, potenciais receptores de múltiplas transfusões de sangue ou politransfundidos, portadores de nefropatias crônicas/dialisados/síndrome nefrótica, indivíduos com convívio familiar contínuo com pessoas portadoras de HBV, portadores de fibrose cística (mucoviscidose), imunodeprimidos, populações indígenas, usuários de drogas injetáveis e inaláveis, pessoas reclusas (presídios, hospitais psiquiátricos, instituições de menores, forças armadas, etc.), carcereiros de delegacias e penitenciárias, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo; profissionais de saúde, coletadores de lixo hospitalar e domiciliar, bombeiros, policiais militares, policiais civis e policiais rodoviários, profissionais envolvidos em atividades de resgate. A imunização contra hepatite B é realizada em três doses, com intervalo de um mês entre a primeira e a segunda dose e de seis meses entre a primeira e a terceira dose (0, 1 e 6 meses). A vacina, após administração do esquema completo, induz imunidade em 90% a 95% dos casos. As populações como imunocomprometidos, portadores de insuficiência renal em programas de hemodiálise e alguns bebês prematuros, devem fazer uso de esquemas especiais, conforme Manual do CRIE, 3ª edição, MS, 2006 (BRASIL, 2006b).
Hepatite C
Até
1975, somente se conhecia os vírus das hepatites A e B e, naquele ano foi
demonstrada pela primeira vez, a associação entre hepatite e transfusão
sanguínea, que não era causada por nenhum destes dois vírus. Essa nova forma de
hepatite foi denominada hepatite não-A não-B. Em 1989, o vírus da hepatite
não-A não-B foi identificado e isolado pela primeira vez e recebeu o nome de vírus da hepatite C (VHC). O VHC é um vírus RNA, família
Flaviviridae. Ele se multiplica em grande quantidade, podendo produzir
até 1 trilhão de vírus por dia. Estima-se que o vírus sobreviva entre 2 a 3
horas no sangue. O VHC é classificado em seis principais genótipos (1 a 6). Os
genótipos 1, 2 e 3 têm distribuição mundial, sendo os genótipos 1a e 1b os mais
comuns (60%). No Brasil, também predomina o genótipo 1 (60%), em relação aos
outros. As frequentes mutações do VHC e os numerosos subtipos virais
são alguns dos obstáculos para o desenvolvimento de uma vacina eficaz.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 3% da
população mundial pode estar infectadas pelo HCV. A figura abaixo mostra a
prevalência da hepatite C nas regiões do país:
A transmissão
do HCV ocorre pelo contato com sangue infectado em virtude de exposição
percutânea, transfusão de sangue e/ou hemoderivados e transplantes de doadores
infectados. Atualmente, destacam-se como importantes formas de transmissão do
HCV o compartilhamento de equipamentos para uso de drogas, confecção de
tatuagens e colocação de “pierccing”, além de objetos de uso pessoal, tais como
lâminas de barbear ou depilar, escovas de dente e instrumentos para
pedicure/manicure. O HCV é transmitido
de forma menos eficiente por exposição de mucosas ou contato com fluidos
corporais. A transmissão sexual ocorre principalmente em pessoas com múltiplas
parcerias e com práticas sexuais desprotegidas. A coexistência de alguma doença
sexualmente transmissível (DST), incluindo o HIV, constitui relevante
facilitador para a transmissão. A transmissão vertical do HCV é menos frequente
quando comparada à da hepatite B e ocorre em cerca de 5% dos bebês nascidos de
mães portadoras do HCV com carga viral elevada. O risco de transmissão é
aproximadamente quatro vezes maior em crianças nascidas de mulheres
coinfectadas com HCV e HIV10.
A
hepatite C aguda não causa sintomas,
na maioria dos casos (50 – 90%). Até 90% dos infectados pelo VHC desenvolvem
hepatite crônica (presença de doença sem melhora nos últimos 6 meses). Destas pessoas, 20% a 30% evoluem para cirrose e dos
cirróticos 1,0% a 5,0% desenvolvem hepatocarcinoma. Grande parte (60 – 80%) das pessoas com hepatite C crônica não
apresenta sintomas. Os sintomas surgem somente nas fases mais avançadas da
doença, na presença de insuficiência hepática. Devido a esta ausência de
sintomas, a hepatite C é conhecida como "Epidemia Silenciosa". A
progressão da doença do fígado pode durar várias décadas e fatores como consumo
de álcool, diabetes, infecção por HIV ou outros vírus no fígado, além de ter
contraído a hepatite C em idade avançada, contribuem para acelerar a evolução
da doença. Pelo fato de a hepatite C ter uma alta taxa de doença crônica e ser
lentamente progressiva, pode levar à cirrose em 10 a 40% dos indivíduos. Dentre
os cirróticos, 1 a 5% por ano podem apresentar câncer de fígado e o risco de
morte é de aproximadamente 4% ao ano. As
hepatites sintomáticas são caracterizadas por sinais e sintomas clínicos muitas
vezes inespecíficos tais como mal-estar,
cefaléia, febre baixa, anorexia, astenia, fadiga, artralgia, náuseas, vômitos, desconforto
no hipocôndrio direito e aversão a alguns alimentos e cigarro. A icterícia é
encontrada entre 18 a 26% dos casos de hepatite aguda e inicia-se quando a
febre desaparece, podendo ser precedida por colúria e hipocolia fecal. Pode
haver também hepatomegalia ou hepatoesplenomegalia. Na forma aguda os sintomas
vão desaparecendo paulatinamente.
O
diagnóstico da hepatite
C é feito através de exames de sangue (sorológico) que medem a quantidade de
anticorpos específicos contra o VHC produzidos pelo organismo e pela dosagem da
quantidade de vírus no sangue (testes de biologia molecular), anti HCV e HCV
RNA, respectivamente. Para confirmar hepatite crônica é necessário realizar a
contagem do vírus no sangue através dos testes de biologia molecular que medem a carga viral (PCR – reação
de polimerase em cadeia). Além de confirmarem o diagnóstico da hepatite C, os
testes de carga viral também são úteis na identificação da transmissão vertical
(da mãe para o recém-nascido), em profissionais de saúde que sofreram acidentes
com instrumentos pérfuro-cortantes e no acompanhamento da resposta ao
tratamento. Existem também os testes rápidos, que permitem identificar os
anticorpos anti-VHC alguns minutos após a realização. Estes testes não requerem
coleta de sangue, mas uma gota obtida por uma "picada" no dedo. Os
testes que avaliam lesão hepática ou comprometimento da função do fígado são os
mesmos realizados para a hepatite B.
O
tratamento na fase aguda da
infecção pelo HCV tem como objetivo reduzir o risco de progressão para hepatite
crônica. A detecção precoce da infecção aguda, sintomática ou não, vem sendo
considerada uma importante medida de controle do HCV, a ser incorporada na
prática clínica. O início tardio da terapia associa-se à menor resposta
virológica sustentada (RVS). Quando a infecção é tratada precocemente, as taxas
de RVS alcançam valores superiores a 80% e, em algumas situações, próximos de
98%. Nos casos sintomáticos de hepatite C aguda, sobretudo nos ictéricos,
o clareamento viral espontâneo pode
ocorrer em 15% a 45% dos casos. Nas infecções causadas pelo genótipo 3, a
probabilidade de clareamento viral espontâneo é maior. O clareamento viral
espontâneo, quando observado, ocorre mais frequentemente nas primeiras 12
semanas após o início da infecção. De acordo com o Protocolo do Programa
Nacional de Hepatites Virais do Ministério da Saúde, recomenda-se Interferon convencional, interferon peguilado alfa 2a,
interferon peguilado alfa 2b, ribavirina e os inibidores de protease
(telaprevir e boceprevir). O tratamento
da hepatite viral crônica C tem como objetivo controlar a progressão da
doença hepática por meio da inibição da replicação viral. De forma geral, a
redução da atividade inflamatória impede a evolução para cirrose e CHC74. A
decisão de iniciar o tratamento deve considerar o risco de progressão da
doença, a probabilidade de resposta terapêutica, os eventos adversos do
tratamento e a presença de comorbidades.
Algumas condições podem interferir no tratamento e devem ser
investigadas, como, por exemplo, presença de doença psiquiátrica, cardíaca ou
renal, doenças autoimunes, uso abusivo de álcool e outras drogas.
A prevenção requer atitudes e práticas seguras, iguais ao preconizados para a
hepatite B com exceção da vacinação visto que não existe vacina para este vírus.
Todos os casos devem ser notificados e investigados pela Vigilância
Epidemiológica do país, que visa conhecer
a magnitude, tendência, distribuição geográfica e por faixa etária, além de
investigar os casos e adotar medidas de controle.
Autores: alunos do 4° período do Curso de Farmácia da Uniso
Beatriz Moreira
Bruna A. Dezzotti
Bruna Marçal
Monique Neves Santana
Rafael
Fais
Revisão: Edilma Maria de Albuquerque vsconcelos
Imagem mapa: Roche, 2012
Bibliografias
http://www.saude.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=519>
Acessado em 29 de setembro de 2013
http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/pcdt_hepatite_c_2011_retificado.pdf>
Acessado em: 29 de setembro de 2013
http://www.bancodesaude.com.br/hepatites/comparacao-entre-hepatites>
Acessado em: 29 de setembro de 2013
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/profissional/visualizar_texto.cfm?idtxt=31204 Acessado em 13 de outubro de 2013


