sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Condições clínicas que interferem na determinação da Hb glicada. E, nestas condições, quais parâmetros laboratoriais substituem.


A glicação proteica ocorre mediante a dição não enzimática de glicose a estas macromoléculas, que passam a ficar quimicamente modificadas  e perdem as funções. Todas as proteínas do organismo podem ser glicadas e quando há o aumento da glicemia a possibilidade de glicação aumenta, intensificado a quantidade de proteína glicada.
A hemoglobina (Hb) é uma proteína que está presente na hemácias e o teste de Hb glicada (HbA1c) reflete a concentração dos níveis de glicose sanguínea: quanto maior for a quantidade de glicose circulante, maior será o nível de A1C. É um teste laboratorial utilizado para o diagnóstico de diabetes melito e também para avaliação do controle glicêmico.
Algumas condições clínicas e certos interferentes analíticos devem ser considerados na determinação de hemoglobina glicada, pois tanto podem promover redução do valor real quanto promover o aumento do valor real.
As doenças que cursam com anemia hemolítica ou estados hemorrágicos podem resultar em valores inapropriadamente diminuídos por encurtarem a meia vida das hemácias. A presença de grandes quantidades de vitaminas C e E é descrita como fator que pode induzir resultados falsamente diminuídos por inibirem a glicação da hemoglobina. O uso do medicamento dapsona pode induzir artificialmente queda nos níveis de hemoglobina glicada. A causa desta interferência não está claramente estabelecida. No entanto, é sabido que a dapsona pode induzir a oxidação da hemoglobina para meta-hemoglobina, o qual pode interferir no ensaio por cromatografia líquida de alta performance (HPLC). A dapsona pode também reduzir o tempo de sobrevida das hemácias, independente do seu efeito hemolítico.
 A anemia por carência de ferro, vitamina B12 ou folato pode resultar em valores inapropriadamente elevados da A1C. Hipertriacilglicerolemia, hiperbilirrubinemia, uremia, alcoolismo crônico e ingestão crônica de opiáceos podem interferir em algumas metodologias produzindo resultados falsamente elevados. Hemoglobina quimicamente modificada pode estar presente nos pacientes com uremia, produzindo um composto denominado hemoglobina carbamilada, resultado da ligação da ureia à hemoglobina. Os pacientes que fazem uso de elevadas quantidades de ácido acetilsalicílico produzem a hemoglobina acetilada. Ambos os elementos podem interferir na dosagem da hemoglobina glicada, produzindo resultados falsamente elevados.
Variantes da hemoglobina (S, C, E e F), doenças como anemia falciforme e talassemias podem causar dificuldades na interpretação da HbA1c e por isso indivíduos  com história familiar destas doenças, afrodescendentes e asiáticos devem ser cuidadosamente avaliados.
Uma das possibilidades de substituição da hemoglobina glicada, em decorrência das interferências acima citada, é o uso da albumina glicada. Neste caso, há uma diminuição do tempo de observação do controle glicêmico porque enquanto a meia-vida da hemoglobina é em torno de 120 dias a da albumina é de apenas 20dias.  Não é um teste regularmente disponível na prática laboratorial diária. Outra possobilidade é o teste da frutosamina que tem também como base a glicação de proteínas, sendo resultante da interação da glicose plasmática e a lisina, presente na molécula de albumina e de outras proteínas. Como a albumina é maior o componente da frutosamina, tem meia-vida curta, cerca de duas a três semanas, o teste da frutosamina reflete o controle glicêmico de curto prazo.

Autora: Thaís Castro Borsari.

Revisão: Edilma Maria de Albuquerque Vasconcelos.

Fontes Consultadas:
Atualização sobre hemoglobina glicada (A1C) para avaliação do controle glicêmico e para o diagnóstico do diabetes: aspectos clínicos e laboratoriais (2017-2018). Disponível em: https://www.diabetes.org.br/publico/images/banners/posicionamento-3-2.pdf


Limitações na interpretação da hemoglobina glicada (HbA1c). Disponível em:

NETTO, A. P. et al. Atualização sobre hemoglobina glicada (HbA1C) para avaliação do controle glicêmico e para o diagnóstico do diabetes: aspectos clínicos e laboratoriais. J Bras Patol Med Lab. v 45. n 1. p 31-48, fev. de 2009. Disponível em:  http://www.scielo.br/pdf/jbpml/v45n1/07.pdf