
Sabe-se que as dislipidemias desempenham um importante papel na elevação do surgimento das doenças cardiovasculares porque participam da fisiopatologia do processo aterosclerótico. É sabido também que altas concentrações de lipoproteína de alta densidade (HDL) têm valor positivo de proteção contra as doenças cardiovasculares (DCV), sobretudo devido a sua participação no transporte reverso do colesterol (TRC). Alguns estudos têm demonstrado que um aumento nos níveis séricos de HDL-colesterol (HDL-col), da ordem de 1 mg/dL, produz redução de 2-3% na incidência de DCV. Também foi demonstrado que concentrações séricas elevadas de HDL-col podem impedir a progressão da placa aterosclerótica, promovendo, aliás, sua regressão. Estratégias farmacológicas e biológicas para modificação dos níveis de HDL-col surgiram como novas perspectivas na prevenção e tratamento da aterosclerose. Várias têm ação sobre a proteína de transferência de colesterol éster (CETP). A CETP faz parte do TRC e neste processo faz a intermediação entre as partículas ricas em triacilglicerol e a HDL, troca de triacilglicerol e colesterol esterificado, respectivamente. A partícula de HDL rica em triacilglicerois é mais sensível à ação da enzima lipase hepática (LH), o que favorece a remoção do colesterol esterificado pelos receptores hepáticos. Entretanto, os resultados foram decepcionantes visto que a utilização de um inibidor sintético da CETP, o Torcetrapib, aumentou em até 72% os níveis sérico da HDL-col e diminuiu a lipoproteína de baixa densidade (LDL-col) em 24,9% mas, apesar destas mudanças favoráveis em lipídeos, o uso do Torcetrapib levou ao aumento da pressão arterial e do risco de morbidade e mortalidade (por causa cardiovascular e não cardiovascular) e lém disso, não houve diminuição significativa na progressão da aterosclerose coronariana. Estudos demonstraram que em seres humanos, a deficiência genética de CETP acompanhada de altas concentrações de HDL-col está estatisticamente correlacionada a um menor risco de doença arterial coronariana (DAC), no entanto, indivíduos com deficiência de CETP, mas com níveis moderadamente altos de HDL apresentam maior risco de DCV. Durante os últimos anos, estudos com camundongos geneticamente modificados mostraram que a ação da CETP é claramente dependente do contexto metabólico. O papel protetor da CETP foi demonstrado em camundongos transgênicos expressando CETP em condições de hipertrigliceridemia, na super expressão da Apolipoproteína B combinada com deficiência da lipoproteína lipase e diabetes melito e em camundongos ovariectomizados. Contudo, outros autores observaram ações pró-aterogênicas em camundongos que expressam a CETP em concentrações supra-fisiológicas na hipercolesterolemia severa por ausência completa de receptores LDL ou da Apolipoproteína E e em ratos hipertensos. Há ainda situações onde a expressão da CETP é neutra para o desenvolvimento de aterosclerose. Estes estudos demonstraram que o metabolismo da HDL é muito mais complexo do que se supunha, mas que os conhecimentos adquiridos sobre a HDL-col e o seu papel anti-aterogênico é fundamental para a otimização das estratégias terapêuticas hoje utilizadas sobre risco de doença cardiovascular. Necessitamos de novos agentes com mecanismos de ação diferentes, que alterem o metabolismo do HDL-col, que promovam alterações mais sustentadas, adicionando benefício sobre os agentes já existentes, pois não há dúvida que baixas concentrações séricas de HDL-col predispoem a aterosclerose.
Autor: Edilma Maria de Albuquerque Vasconcelos
Referências:
1. Michele Carolino Martines. O papel do HDL-colesterol na prevenção da aterosclerose. Trabalho de Conclusão de Curso-Universidade de Sorocada-Uniso, 2008.
2. Camila Canteiro Leança, Marisa Passarelli1, Edna R. Nakandakare, Eder C. R. Quintão. HDL: o yin-yang da doença cardiovascular. Arq Bras Endocrinol Metab. 2010;54-9.
Imagem: http://www.wagnersilvadantas.com.br/2010/02/23/hdl-baixo-o-que-fazer/